• Por: Jornal O Estado de S.Paulo - Publicado em 21/09/2016 08h28 - Atualizado em 21/09/2016 09h16
Faltam cada vez mais policiais civis nas delegacias de São Paulo. O déficit de delegados, responsáveis por conduzir investigações criminais, já atinge uma a cada seis vagas estabelecidas para o cargo no Estado. Entre investigadores e escrivães, a proporção é de um para quatro. Na visão de agentes de segurança e especialistas, os índices revelam o “sucateamento” da Polícia Civil.
 
Com quadro desfalcado, os distritos policiais deixam de esclarecer delitos e punir os autores, além de piorar o atendimento prestado à população. A gestão Geraldo Alckmin (PSDB) diz que não pode efetuar contratações neste momento.
 
Sindicatos das categorias afirmam, com base em dados publicados no Diário Oficial do Estado do dia 30 de abril, que faltam pelo menos 13.913 policiais civis em São Paulo, ou cerca de 30% do efetivo fixado. Já a Secretaria da Segurança Pública (SSP) diz que a diferença para o quadro existente é menos da metade: 6.749 policiais. Foi esse número que o delegado-geral de São Paulo, Youssef Abou Chahin, expôs ao secretário Mágina Alves Barbosa Filho na semana passada.
 
Na ocasião, Chahin apresentou ao titular da Segurança Pública um estudo sobre o déficit da Polícia Civil, na sede do Palácio da Polícia, em São Paulo, em que se mostrou preocupado com o envelhecimento do quadro e o número de aposentadorias, que cresce a cada ano. Projeções apontam que, se o ritmo continuar e não houver reposição, o efetivo de delegados, que hoje tem cerca de 2,9 mil pessoas, pode chegar a 600 em três anos.
 
Atualmente, 560 das 3.463 vagas para o cargo – ou 16,17% – não estão preenchidas. “O claro é gigante. Hoje não tem metade dos policiais que havia quando eu entrei na Polícia Civil, há mais de 30 anos”, afirma um delegado titular que atua na capital. Por causa do déficit, um único profissional chega a presidir 1,2 mil inquéritos. “É humanamente impossível investigar tanta coisa, não vai dar resultado nenhum”, diz George Melão, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp). […]
 

Ouvidoria já alertou sobre a necessidade de abrir concursos na polícia

 
Análise: Julio Cesar Fernandes Neves*
 
A queixa que lidera o ranking de reclamações da Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo atualmente se refere à má qualidade no atendimento policial à população. No caso da Polícia Civil, que faz os registros dos delitos nas delegacias e tem contato direto com o público, esse número de queixas é consequência direta da falta de policiais para um bom atendimento. Só analisando esse dado já seria possível afirmar que o baixo número de policiais civis traz prejuízos a toda a população.
 
Mas há mais. Um atendimento com falhas e alvo de reclamações traz como uma das consequências os erros nos registros estatísticos. Com pouca gente para atender as vítimas de crimes, muita gente desiste de fazer relato de seus casos. Outros registros podem conter erros. Assim, as estatísticas podem ficar incorretas. Com dados que não refletem a realidade, o trabalho de planejamento e investigação policial pode ficar comprometido.
 
Essa é uma questão urgente e é preciso que a Secretaria Estadual da Segurança Pública se sensibilize sobre o tema, abrindo os concursos públicos que se fazem necessários. A Ouvidoria já procurou o governo em mais de uma ocasião para informar sobre esse assunto e policiais e a sociedade esperam que se encontre uma solução.
 
*Julio Cesar Fernandes Neves é ouvidor das Polícias de São Paulo

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